Por Thaís Martinez e Sylvia de Castro
Foi-se o tempo em que as técnicas de make-up ficavam restritas às correções de luz e sombra. Hoje, os maquiadores soltam a criatividade e usam toda a sua técnica, múltiplas texturas e produtos para produzir o look perfeito. Tanto nas passarelas da moda, quanto na propaganda ou na caracterização de personagens, no cinema, no teatro ou na televisão, a maquiagem artística ganha cada vez mais espaço.
O make-up evoluiu muito e se tornou uma verdadeira arte. A chamada body art reflete o comportamento do nosso tempo. Cada vez mais, os maquiadores buscam novas técnicas, além de resultados que valorizem a beleza. No Brasil, os profissionais ainda têm poucas oportunidades de exercer essa nova vertente de arte, mas ainda assim a maquiagem artística tem crescido e aparecido graças aos talentos individuais de beauty artists como Marcos Costa e Théo Carias e do visagista Philip Hallawell.
Na edição de verão do São Paulo Fashion Week, chamou a atenção o make-up que Marcos Costa criou para os desfiles das grifes Ronaldo Fraga e Lino Villaventura. Os rostos das manequins se transformaram em verdadeiras telas para uma explosão de cores e texturas, em pinceladas artísticas. Maquiador oficial da Natura, as criações do beauty stylist combinam intuição, habilidade e pesquisa. Os materiais utilizados por ele vão desde pigmentos usados para sombras e blushes até gelo seco para fazer fumaça e aquele aparelhinho para soltar bolhas de sabão. “Não uso air brush. Quando morei em Paris, no começo dos anos 90, tive a oportunidade de usar e não usei. Sou brasileiro e intuitivo. Acho que um bom maquiador deve explorar as mãos. O traço, o esfumaçado e outros recursos devem ser feitos por elas.” Para ele, o mais importante na maquiagem artística é a criatividade. ”No meu site, tem um make-up feito com folhas secas, folhas de verdade, caídas das árvores, e as pessoas adoram a imagem que resultou,” diz Marcos.
Outro conceituado profissional da body art, Théo Carias, é um dos recordistas de campanhas publicitárias para marcas importantes. Ele mistura colagem com maquiagem nas suas obras de arte, que têm o glamour como marca registrada. Ele define a body art como arte conceitual produzida no corpo e expressada através das cores, texturas e percepções desenvolvidas do olhar do maquiador. “Em uma produção artística, o beauty artist é a figura essencial para indicar a proposta que será usada,” define.
Autodidata, desde criança Théo gostava de desenhar. No dia a dia, sempre procura novos materiais para complementar a produção dos looks. “Lembro ainda do primeiro trabalho de body paint que fiz, com tinta nanquim. Em 1995, tive oportunidade de viajar para Itália e lá mostrei as fotos dos meus trabalhos para alguns amigos. Desde então, comecei a pintar o corpo dos atores, cantores e atrizes de teatro.”
Além de pincéis, esponjas, Théo utiliza em suas maquiagens texturas diferentes, como argila, adesivo de papel com formas geométricas, isopor e objetos recicláveis, que produzem um efeito que complementa a pintura. “Costumo usar o aerógrafo apenas para obter mais uniformidade na aplicação das cores ou para uniformizar uma área da pele. Outra função é criar volume. Conseguimos fazer isso por meio do jogo de luz e sombra. Essa técnica permite aumentar os seios, deixar uma barriga sarada e camuflar imperfeições. Enfim, o aerógrafo é uma ferramenta importante para quem faz body paint.”
Os produtos são à base de água ou de óleo, dependendo da área trabalhada. “Para o colo, o ideal é usar tinturas que contenham óleo na sua composição, para que a maquiagem se fixe.” Ele começa passando uma base por toda a região que receberá o desenho. Em seguida, aplica um pó translúcido, para ajudar a fixar as cores. Usa tintas diluídas em água. “Dessa forma, consigo trabalhar com mais precisão os traços.” O importante, segundo ele, é usar pincéis de cerdas naturais, semelhantes aos vendidos para pintar telas. “Os pincéis de make-up também podem ser usados para aplicar esse tipo de produto, desde que sejam finos, acrescenta. Para finalizar o look, aplica um spray fixador, que mantém a tinta na pele por quatro horas. E revela um segredo: “Abuso das cores e combino as tonalidades com as linhas do corpo, para obter um resultado bem natural”.

Visagismo e caracterização Philip Hallawell é o mais conceituado visagista do país. Autor de Visagismo: harmonia e estética, da Editora Senac, que ensina como aplicar a linguagem visual à criação da imagem pessoal, ele acaba de lançar seu segundo livro. Visagismo Integrado: identidade, estilo e beleza mostra como funciona seu método de fazer a análise do rosto e conduzir uma consultoria. Para ele, a maquiagem artística tem aplicação principalmente nas artes dramáticas: cinema, teatro e televisão. “São nessas áreas que o profissional encontra as maiores oportunidades. Eventualmente, pode ser usada também em visuais de festa”, opina. Ele lembra que nas artes dramáticas o maior desafio do maquiador está em criar uma imagem que expresse a essência do personagem que o ator vai viver. “Ele precisa dominar bem as técnicas de caracterização que permitem envelhecer uma pessoa ou criar efeitos especiais, como cicatrizes, queimaduras ou ferimentos. A maquiagem para o palco deve ser mais forte, ter mais contraste e menos sutileza, porque, do contrário, pode não aparecer. O maquiador tem de aprender a fazer isso na medida, para que não fique nem menos, nem carregado demais.”
Mas onde o profissional pode buscar inspiração e referências para realizar a maquiagem artística? Philip diz que depende do tipo de trabalho. “Se for para o teatro, é o diretor ou roteirista que define o que deseja do personagem. Cabe ao maquiador saber que linhas, formas, cores e combinações usar para expressar a personalidade do personagem. “O conhecimento do visagismo é essencial nesse processo. Quanto maior sua cultura, mais referências terá, que podem vir da literatura, do cinema ou das artes plásticas. Também pode se inspirar na natureza, na observação da realidade que o cerca, ou simplesmente, em desenhos decorativos.”
O visagista acredita que o que limita o profissional é o pouco domínio da linguagem visual. “Na maquiagem artística, o maquiador que domina a luz e a sombra e sabe desenhar por observação leva uma enorme vantagem.” que o trabalho seja artístico”, afirma.

Air brush:Beleza reinventada Com a chegada das TVs de alta definição, o conceito de maquiagem mudou. Para fazer bonito na nova telinha, a indústria da beleza lançou mão de um recurso que já era utilizado para deixar mais perfeitas as estrelas do cinema. Entrou em cena a maquiagem feita com aerógrafo, o air brush, um enorme passo na evolução da body art. Equipamento composto por uma pistola ligada a um compressor de ar, que produz jatos de pigmentos especiais sobre a pele em pontos que se deseja maquiar, cria efeitos produzidos por base, sombra, brush e batom. Essa novidade tecnológica pode ser aplicada tanto no rosto quanto no corpo.
Criado em 1893 para aplicação em pinturas artísticas, o air brush foi utilizado pela primeira vez para maquiagem em 1958, nos estúdios da MGM, durante a filmagem do épico Ben-Hur. Os maquiadores sentiram a necessidade de deixar os figurantes mais bronzeados e recorreram a essa técnica para caracterizar os atores. O método funcionou muito bem e deu origem à maquiagem feita com air brush. A principal vantagem é o resultado natural, porque os produtos se fundem com a pele e asseguram um rosto que nem parece maquiado. A segunda, a economia de tempo. Com o air brush, uma maquiagem que normalmente demora 30 minutos para ser feita pode ficar pronta em apenas cinco. Outra vantagem: a cobertura perfeita. Esse tipo de make-up camufla pequenas imperfeições do rosto de quem aparece na telinha ou fora dela. E tem mais: a pintura com aerógrafo nas pernas bronzeia, esconde as indesejáveis veias e varizes e disfarça até celulite.
Fácil de transportar e de manusear, o aerógrafo permite criar uma maquiagem sem falhas, essencial para a era da HDTV em que vivemos. Com ele, é possível esculpir, contornar, dar forma e salientar os traços de maneira suave por meio de nanopartículas de maquiagem. Por sua precisão, é muito usado por profissionais que trabalham em filmes, na televisão e com fotografia. A técnica já chegou até ao make-up diário, adotada por alguns salões, e tem sido muito usada em noivas pela sua durabilidade, em torno de 12 horas. O retoque é totalmente desaconselhável. O profissional deve estar bem preparado para manusear o air brush e ter o cuidado de proteger a cliente, para que ela não inale o produto. É importante, também, usar produtos específicos para maquiagem com aerógrafo. A Kryolan tem uma linha High Definition, termo técnico usado para imagens de alta resolução de câmeras digitais de alta tecnologia, para responder ao desafio dos maquiadores de adaptar sua arte ao HD, criando uma maquiagem inovadora e microfina. O make-up comum, mesmo quando triturado, pode entupir a pistola e não dá bom acabamento.
A marca Catharine Hill também oferece uma linha completa de equipamentos e materiais de air brush para maquiadores profissionais. O aerógrafo e o kit de pigmentos podem ser comprados individualmente ou como parte do conjunto completo composto por um compressor, um aerógrafo, 37 pigmentos, um pote de limpeza, um cleanser, um moisturizer e uma maleta. |